Empréstimos P2P em Portugal: Plataformas, Riscos e IRS

Os empréstimos P2P (peer-to-peer ou crowdlending) permitem emprestar dinheiro a particulares, empresas ou projetos imobiliários através de uma plataforma online e receber juros que, em 2026, rondam 6 % a 12 % ao ano — várias vezes o que um depósito a prazo paga. A partir de Portugal pode investir desde 1 a 50 € em plataformas europeias reguladas como a Mintos, a Bondora ou a PeerBerry, e nas portuguesas Raize e GoParity, supervisionadas pela CMVM. O que este guia lhe diz que a publicidade não diz: o dinheiro não está garantido por nenhum fundo, as plataformas falham (Grupeer, Kuetzal, Crowdestate, Reinvest24 e parte da EstateGuru são prova disso) e os juros pagam 28 % de IRS. Se depois de ler a secção de riscos ainda fizer sentido, comece com pouco e em várias plataformas.

Empréstimos P2P em 30 segundos

O que éEmprestar diretamente a pessoas, empresas ou projetos através de uma plataforma, em troca de juros
Rentabilidade anunciada 2026Bondora 6 % · Raize 5–8 % · GoParity 5–10 % · Mintos ≈ 9 % · PeerBerry ≈ 11 % · Viainvest 10–13 % · Debitum 11–16 %
Mínimo1 € (Twino, ETFs Mintos) · 10 € (PeerBerry, GoParity, Debitum) · 20 € (Raize) · 50 € (Mintos, Viainvest)
GarantiasNenhuma cobertura de depósitos; “buyback” só vale o que vale o originador do empréstimo
RegulaçãoLicença europeia ECSP (Raize, GoParity, EstateGuru) ou licença de empresa de investimento MiFID (Mintos, Twino, Debitum, Viainvest); Bondora e PeerBerry com licenças nacionais
LiquidezSó com mercado secundário ou produtos tipo Go & Grow; em crise, seca
IRS28 % sobre os juros (categoria E); plataformas estrangeiras declaram-se no anexo J
Limite legal para não profissionaisAviso e confirmação acima de 1000 € ou 5 % do património por plataforma em 12 meses (regulamento ECSP)

Como funciona um empréstimo P2P

Há dois modelos. No crowdlending direto (Raize, GoParity, EstateGuru, Bondora), a plataforma publica um empréstimo a uma empresa, um projeto ou um particular, os investidores financiam-no em parcelas pequenas e recebem capital e juros ao longo do prazo. No marketplace de originadores (Mintos, PeerBerry, Viainvest, Debitum), quem empresta é uma financeira (o “originador”), que depois vende fatias desses empréstimos aos investidores e promete recomprá-los se o devedor falhar mais de 60 dias — a chamada buyback guarantee. Na prática compra-se risco de crédito do originador, não do devedor final.

Em qualquer dos modelos, a plataforma cobra ao devedor ou ao originador; para o investidor é normalmente gratuita, exceto taxas de venda no mercado secundário ou de levantamento.

Plataformas P2P que aceitam investidores portugueses em 2026

PlataformaPaís / reguladorTipoMínimoRentabilidade anunciadaRetenção na fonte
MintosLetónia · Latvijas Banka (MiFID)Marketplace de originadores, obrigações fracionadas, ETFs, Smart Cash50 € (1 € nos ETFs)≈ 9 % (empréstimos)5 % para residentes na UE
Bondora Go & GrowEstóniaCarteira automática com liquidez diária1 €≈ 6 %Não
PeerBerryCroáciaMarketplace de originadores10 €≈ 11 %Não
RaizePortugal · CMVM (ECSP)Empréstimos a PME portuguesas20 €5–8 %28 % (já liquidado)
GoParityPortugal · CMVM (ECSP)Projetos de impacto (solar, eficiência, social)10 €5–10 %28 % (já liquidado)
ViainvestLetónia · Latvijas BankaEmpréstimos ao consumo do grupo VIA SMS50 €10–13 %Sim, reduzível com certificado de residência
DebitumLetónia · Latvijas BankaEmpréstimos a empresas (ativos garantidos)10 €11–16 %Sim, reduzível
TwinoLetónia · Latvijas BankaEmpréstimos ao consumo1 €6–12 %Sim, reduzível
EstateGuruEstónia · ECSPEmpréstimos imobiliários com hipoteca50 €Anunciada 10 %+; real muito inferior desde 2023Não

Mintos — a maior da Europa

Mais de 500 mil investidores, licença de empresa de investimento na Letónia (o que dá acesso ao esquema de compensação de investidores até 20 000 € em caso de falha da própria Mintos — não dos empréstimos) e o leque mais largo: empréstimos de dezenas de originadores em vários países, obrigações fracionadas, ETFs desde 1 € e a conta Smart Cash com cerca de 2 %. Rentabilidade média ponderada anunciada de cerca de 9 % nos empréstimos. Retém 5 % de imposto na fonte a residentes na UE que confirmem a residência fiscal — valor que pode deduzir no IRS português. Tem programa de convite para amigos.

Abrir conta na Mintos

Bondora Go & Grow — a mais simples

Deposita, a Bondora investe por si numa carteira de empréstimos ao consumo e paga cerca de 6 % ao ano, com levantamentos normalmente em 1 a 2 dias úteis. É o produto mais “parecido com um depósito” do sector, mas não é um depósito: a liquidez depende de a Bondora ter caixa e o retorno não é garantido. Sem retenção na fonte; declara os juros no anexo J.

PeerBerry — juros altos, originadores concentrados

Marketplace com mínimo de 10 € e cerca de 11 % anunciados, sobretudo em empréstimos de curto prazo de originadores da Europa de Leste. Boa distribuição de juros nos últimos anos, mas concentração num pequeno grupo de financeiras — diversifique noutras plataformas.

Raize e GoParity — as portuguesas, com a CMVM a supervisionar

A Raize financia PME portuguesas desde 20 € com 5 % a 8 % ao ano e foi a primeira plataforma de crowdfunding registada na CMVM; a GoParity financia projetos de energia solar, eficiência e impacto social desde 10 €, com 5 % a 10 %, e tem licença europeia para operar em toda a UE. Nas duas o imposto é retido na fonte (28 %), por isso não há nada a declarar à parte, e o risco é o de crédito das empresas financiadas — sem “buyback”.

Raize · GoParity

Viainvest, Debitum, Twino, Robocash, Esketit

Plataformas letãs e croatas com licenças locais e juros entre 10 % e 16 %, quase sempre ligadas a um único grupo financeiro (Viainvest ao VIA SMS, Robocash à UnaFinancial, Esketit ao AvaFin). Rentabilidade alta com o risco correspondente: se o grupo tiver problemas, a “garantia” desaparece com ele. Só para a fatia mais pequena da carteira.

EstateGuru: o que aconteceu e como está em 2026

A EstateGuru foi durante anos a plataforma imobiliária preferida dos investidores portugueses — empréstimos com hipoteca, 10 % a 12 % anunciados. A partir de 2022 acumulou incumprimentos na Alemanha, Finlândia e outros mercados que entretanto fechou: em 2026, 96 % dos 97,7 milhões de euros ainda em dívida nesses mercados estão em recuperação, e mesmo nos mercados ativos (Estónia, Letónia, Lituânia) cerca de um terço dos empréstimos estava em incumprimento em abril de 2026. A empresa continua a operar, recuperou cerca de 70 milhões desde o início e tem licença ECSP, mas o histórico recente diz tudo sobre o risco real de empréstimos “garantidos por hipoteca”: a garantia existe, a recuperação demora anos. Quem tem dinheiro preso deve acompanhar os relatórios de recuperação mensais; quem está a começar tem opções com melhor histórico.

Os riscos reais dos empréstimos P2P

  1. Falência da plataforma. Grupeer, Kuetzal, Envestio, Wisefund e Monethera desapareceram em 2020 com o dinheiro dos investidores; a Crowdestate encerrou em 2025-2026; a Reinvest24 não processa levantamentos desde 2024 e foi alvo de alertas dos reguladores da Estónia, Espanha e Noruega. Só as plataformas com licença MiFID têm esquema de compensação (até 20 000 €) — e cobre a falha da plataforma, não os empréstimos.
  2. Falência do originador. A “garantia de recompra” é uma promessa da financeira que emprestou. Se ela cair, a garantia cai com ela. Foi assim com vários originadores da Mintos entre 2020 e 2023, com recuperações parciais que ainda decorrem.
  3. Incumprimento. Sem buyback (Raize, GoParity, EstateGuru, Bondora clássico), uma parte dos empréstimos não é paga. Taxas de 5 % a 30 % de incumprimento são normais consoante o tipo de crédito.
  4. Liquidez. O dinheiro fica preso até ao fim do empréstimo (meses a anos). Os mercados secundários e o Go & Grow funcionam bem em tempos calmos e fecham quando toda a gente quer sair ao mesmo tempo, como em março de 2020.
  5. Sem garantia de depósitos. Ao contrário de uma conta bancária, não há Fundo de Garantia de Depósitos. O capital pode perder-se na totalidade.

Regra prática usada por quem investe há anos: nunca mais de 5 % a 10 % do património total em P2P, repartido por 3 a 5 plataformas e centenas de empréstimos, e só dinheiro de que não precisa nos próximos dois anos.

O que a regulação europeia lhe garante (e o que não garante)

Desde 2023, as plataformas de crowdlending precisam de licença ECSP (regulamento europeu de crowdfunding) ou de licença de empresa de investimento. Com isso, o investidor não profissional tem direito a uma ficha de informação (KIIS) por cada empréstimo, a um período de reflexão de 4 dias para desistir sem custos, e a um aviso obrigatório sempre que investir mais de 1000 € ou 5 % do património numa plataforma em 12 meses. Verifique a licença no site da plataforma e no registo da CMVM ou do regulador do país de origem antes de transferir dinheiro. A regulação reduz fraudes; não elimina o risco de crédito.

Como declarar os juros P2P no IRS

  • Os juros são rendimentos de capitais (categoria E), tributados a 28 % por taxa liberatória ou, se lhe convier, englobados com os restantes rendimentos.
  • Raize e GoParity retêm os 28 % na fonte: não precisa de declarar nada à parte, salvo se optar pelo englobamento.
  • Mintos, Bondora, PeerBerry e as restantes estrangeiras não retêm imposto português: declare os juros brutos no anexo J, quadro 8-A, código E21, com o código do país (Letónia 428, Estónia 233, Croácia 191). O total anual está no relatório fiscal que cada plataforma disponibiliza em janeiro.
  • Se a plataforma reteve imposto no país de origem (os 5 % da Mintos, por exemplo), indique-o no mesmo quadro para o deduzir e evitar dupla tributação.
  • Englobar compensa quando o seu escalão de IRS fica abaixo de 28 % — pensões e rendimentos baixos; simule no Portal das Finanças antes de escolher.

Como começar em 5 passos

  1. Decida o montante total para P2P (uma pequena fatia das poupanças) e divida-o por 3 a 5 plataformas com licenças diferentes: por exemplo Mintos, Bondora Go & Grow e uma portuguesa.
  2. Abra conta com o cartão de cidadão e comprovativo de morada; a verificação demora 1 a 2 dias. Transfira por SEPA a partir da sua conta bancária.
  3. Ative o auto-invest com limites por empréstimo (10 a 50 €), prazos curtos e apenas originadores com boa avaliação.
  4. Reinvista os juros durante o primeiro ano e leia os relatórios mensais da plataforma — atrasos de pagamento dos originadores são o primeiro sinal de problemas.
  5. Em janeiro, descarregue o relatório fiscal de cada plataforma e guarde-o para o IRS.

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Os empréstimos P2P são seguros?

Não são um depósito: não há fundo de garantia e várias plataformas faliram ou congelaram levantamentos (Grupeer, Kuetzal, Crowdestate, Reinvest24). O risco reduz-se com plataformas licenciadas, diversificação por várias plataformas e centenas de empréstimos, e investindo só uma pequena parte das poupanças.

Quanto rendem os empréstimos P2P em 2026?

Entre 6 % (Bondora Go & Grow) e 10 % a 16 % nas plataformas letãs de maior risco. A Mintos anuncia cerca de 9 % e as portuguesas Raize e GoParity 5 % a 10 %. Descontando incumprimentos e os 28 % de IRS, o retorno líquido realista fica entre 4 % e 8 %.

Como se pagam impostos sobre os juros P2P em Portugal?

Os juros são rendimentos de capitais tributados a 28 %. A Raize e a GoParity retêm na fonte; nas plataformas estrangeiras declara os juros brutos no anexo J (código E21) e deduz o imposto retido no estrangeiro, como os 5 % da Mintos.

O que é a garantia de recompra (buyback)?

É a promessa do originador do empréstimo de o recomprar se o devedor falhar mais de 60 dias. Protege contra o incumprimento do devedor, não contra a falência do originador — se este falir, a garantia deixa de valer.

Qual é a melhor plataforma P2P para começar?

Para a maioria dos investidores portugueses, uma combinação de Mintos (maior escolha e licença MiFID), Bondora Go & Grow (simplicidade e liquidez) e uma plataforma portuguesa regulada pela CMVM (Raize ou GoParity) cobre os três tipos de risco com montantes pequenos.

A EstateGuru ainda é uma boa opção?

Em 2026 a EstateGuru continua a operar, mas tem 96 % da carteira dos mercados encerrados em recuperação e cerca de um terço dos empréstimos ativos em incumprimento. Quem lá tem dinheiro deve acompanhar os relatórios de recuperação; para começar há plataformas com melhor histórico.

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